Floripa, 15 de maio de 2007.
Fui surfar no “little river”. O mar estava pesado e tubular, mas bizarramente mexido. Tinha acabado de surfar. Braços cansados, pescoço assado e dois tubos magrinhos na cabeça. No estacionamento, pronto pra partir, vejo um amigo vindo da praia em êxtase: “o Fabinho Gouveia pegou um tubão ali, o mar ta ajeitando”.
Olhei pro lado e lá estava aquele mosaico amarelo de adesivos que só podia ser a viatura do mestre. Falei brincando: “Já que não achei nada na primeira queda, vou lá ver se aprendo um pouco. Vai que eu pego uma vibe com Fabinho e ainda tiro um tubo bom”.
Entrei. No pico, sempre simpático, o ídolo me cumprimentou. Peguei uma, duas, três. Nada de bom. Voltando pro outside, vejo uma série entrando. A raça grita, um triângulo sobe e lá estava ele. Um artista. Pintando ele dropa no ponto mais crítico. Em pé, inicia a poesia. Se fosse qualquer outro diria que era marra, mas era o Fabinho. O tubo roda, a segunda placa mais longa vem e ele se agacha. Acelera lá dentro, tudo escuro. De camarote, eu só via uma escuridão contrastada com o branco da espuma. Eu torcendo, a galera ainda gritando, lá de dentro vem ele, todo espremido na minúscula porta no final do tubo num estilo “snoopy” que só ele poderia ter. Uma aula. Saiu do meu lado. Eu, já com a garganta gasta, recebo um “issaaa...” do cara.
De volta no pico, sobe outra. Esta era pra mim. O mestre estava logo do lado, a um braço de distância. Olhou pra mim e eu sorri. Ele sorriu e puxou o bico. Dropei muito atrasado. Já tinha errado dois drops assim. Despenquei, segurei. Na base já tava dentro do tubo (quem conhece o little river sabe do que falo). Abaixei. Acelerei lá dentro. O tubo foi espremendo, fui diminuindo, e mais um pouco, e lá no final... saí... Dei um berro pequeno só pra agradecer à benção do Fia. Botei a cabeça pra dentro d’água e berrei para todo o universo aquático, muito mais em paz que aquele crowd todo que estava lá em cima.
Voltei pro pico e ainda tive a grata satisfação de falar com ele:
“E aí pegou aquele tubo? Pensei que tu ia pra esquerda...”
“Peguei, Fabinho. Quase caí no drop, mas deu certo”.
“Issaaa...”
Envergonhado que sou, não agradeci pela energia doada nem contei a história. Mas, se a energia realmente veio, sem dúvida voltou com uma bela dose de gratidão. |