10 perguntas para cisco araña
Por: Zé Augusto de Aguiar

Basta estar na presença calma e iluminada de sua voz tranqüila e olhos azuis profundos que já percebemos que o santista Cisco Araña, 51 anos, não é apenas um mestre das ondas. Não é apenas um campeão paulista e brasileiro de ontem e hoje, de pranchinha ou longboard. Seu dom é ainda mais valioso: ensinar e formar surfistas e cidadãos. Cisco coordena a primeira e mais antiga escolinha de surfe pública do país, no Canal 2 de Santos (SP), há 16 anos. Ali ele e sua equipe oferecerem a magia e terapia das ondas para crianças, jovens e velhinhos. Além disso, a Escola Radical de Santos/Sthill ainda faz um belíssimo trabalho de aulas de surfe e body-boarding para portadores de deficiências físicas e cerebrais, entre cadeirantes, down e até cegos. E Cisco, formado e pós-graduado em Educação Física, é ainda professor universitário da disciplina surfe na Unisanta e Unimes. Esse sabe o que é compartilhar e retribuir o que o mar lhe deu.

1- VOCÊ ERA UM GRANDE COMPETIDOR, AINDA É. POR QUE QUIS DAR AULA DE SURFE, QUANDO MUITA GENTE NÃO QUER COMPARTILHAR, DIZEM, “PÔ, VAI CROWDEAR”...
Ser professor é um dom. Você pode ser um excelente surfista e atleta e não ter o dom de dar aula. Um dos principais fatores pra dar aula é saber escutar, observar. Pra dar aulas eu tive que corrigir todos os meus erros, apesar de ser um bom surfista. É preciso colocar a pessoa no mar de uma forma segura, sem que se machuque, sem que tenha daqui a 10 anos algum tipo de lesão. Isso a educação física me deu: a observação das alavancas, dos movimentos corretos para serem menos lesivos na minha modalidade. Mas eu tive grandes professores, mestres. A educação física foi uma ponte. Como eu tava dando aula já de natação, ginástica, foi conseqüência da minha formação de professor. O que me levou a dar aula no surfe foi a permanência no esporte, e tantos anos competindo.

2-O QUE É SER UM PROFESSOR DE SURFE?
É ser um profissional feliz, porque sei que o esporte, antes marginalizado, hoje promove a qualidade de vida. Integra as pessoas, favorece toda uma saúde física e mental, abre portas de trabalho e de amizade.

3- O QUE VOCÊ MAIS APRENDEU NA ESCOLINHA?
Eu aprendi que o surfe, como sentimento, não tem limites. Escutei de um havaiano, o Clyde Aikau, uma coisa que me marcou. Os havaianos têm um sentimento de prazer pelo surfe que é diferente do que nós vivemos aqui, onde o cara que ganha campeonato é o bom surfista. Mas ser um bom surfista é sentir o surfe dentro de si, não importa que surfe de body-boarding, de prancha convencional ou de longboard, jacaré; o importante é estar se divertindo. Aprendi que se a gente promove esse tipo de situação, a gente promove um outside melhor, um crowd mais tranqüilo; a gente vira irmão, uma família na água. A escola do Posto 2 criou esse crowd legal, os surfistas que estão lá arrepiando também respeitam os idosos, respeitam o bodyboard, os velhinhos que surfam, as crianças. O surfe transcendeu a coisa do troféu, foi uma grande lição pra minha vida. Tanto é que na minha casa você não vai ver nenhum troféu meu, tá tudo guardadinho. O surfe evoluiu pra mim no sentido de fazer o bem para as pessoas, fazer com que se sintam bem no mar

.4- COMO É TRABALHAR COM OS DEFICIENTES, E QUAIS TIPOS A ESCOLINHA ATENDE?
Deficiente é uma palavra meio pesada. Deficientes somos todos nós, porque a gente não consegue compreender porque taxamos essas pessoas diferente de todos nós. É porque é um mundo que foi contextualizado pra gente que enxerga, toca, que fala ou escuta. Bom, meu mestre é mudo, o Carlos Mudinho (*). Ele me ensinou muitas coisas, como essa linha integrada à natureza. Como surfar pra mim e pros outros na competição, mas ter uma visão mais global: contemplar os golfinhos, gaivotas, a fruta e água que está lá, fazer uma yoga, esse foi meu caminho. O Mudinho é um ser humano maravilhoso, se formou em arquitetura, “pô, como ele conseguiu se formar e eu não vou conseguir?”. Então ele já me levou pra essa linha, e engraçado que meu primeiro trabalho com pessoas com algum tipo de necessidade especial foi com surdos. Aí perguntavam, “pô, Cisco, como a gente vai trabalhar com esses caras, a gente não sabe a linguagem deles”. Isso não importa, meu mestre é mudo, e sempre falei com ele. A primeira coisa é não ter bloqueios, não ter medo. O que faz não ter medo é sua vivência prática, não a teórica. Prática, prática, prática: eu sei o quanto posso ir lá no fundo, voltar, salvar; sei o quanto pode machucar. Isso me deu segurança pra trabalhar. Nosso primeiro trabalho foi com 12 crianças da rede pública municipal de Santos, e os relatos da coordenadora pedagógica de lá foram maravilhosas. Crianças que não sorriam, sorriam pela primeira vez; os desenhos escuros ficaram coloridos. Tudo através do surfe, e não só disso, mas da prática segura de uma modalidade. E DENTRO DO MAR, que tem toda a questão da saúde, de elementos maravilhosos, o sol no rosto, a liberdade. Em 97, já entrou o Val (Valdemir Pereira), rapaz cego. Pensamos, “vamos ter que aprender, criar uma metodologia para ele, tentar entender como ele vai escutar, como vai pegar essa onda”. A gente aprende (Cisco construiu uma prancha especial para cegos, com marcações nela para o cego sentir mais toda a prancha). Se o professor colocar um bloqueio de trabalhar com aquela pessoa, ele não vai conseguir. Tem que ser ousado, tem que ter atitude e segurança pela prática. Uma mãe que tem o filho com necessidades especiais ou qualquer tipo de problema, ela não entende o problema da parte fisiológica, ela não entende da parte neurológica, mas o que ela faz? Ela consegue alimentar, consegue trocar seu filho, levar ele pra escola, ela consegue fazer desse filho um ser humano com amor. Então, a primeira coisa que eu aprendi, de trabalhar na escolinha, é ter amor. Amor pelo próximo, e aí você consegue abraçar a causa e dá tudo certo. Eu aprendi que o amor é uma coisa muito maior do que a gente imagina. Ele transforma realmente as coisas, protege; essa bondade e doação é um grande exercício de didática, de você saber que está em irmandade com uma coisa maravilhosa que é a vida. Então aprendemos muito aqui todos os dias com várias crianças: com autista, DM (com deficiência motora), PC (paralisia cerebral), Down, DV (deficiência visual), autistas etc.

5- CONSEGUE LEMBRAR DE UM ALUNO EM ESPECIAL?
Tem vários. Tem uma menina, a Cássia, que tem vários problemas articulares, de joelho, no tendão de aquiles. Ela viu uma reportagem do Val (o menino cego) uma vez na televisão, e ela veio de São Paulo. Ela veio num dia que tava mexido, torto; veio se apoiando com a bengalinha, apoiando na gente, “eu quero fazer aula”, então vamos lá. Primeiro dia de aula dela de bodyboard, chegamos lá, foi agarrando em mim, fomos embora. Ficamos lá 40 minutos brincando de bodyboard. Ela vai pra lá, pra cá; desequilibra, equilibra; cai, levanta; se vira, brinca. Quando passou 40 minutos, saímos, viemos caminhando em direção à escola, ela chegou e falou: “Professor, eu queria te falar uma coisa: é a primeira vez que eu saio da água sem ter que apoiar em alguma coisa”. Outro caso é o relato do Roberto Seasta, coordenador do núcleo de terapia ocupacional da PUC (SP), que veio com crianças cadeirantes pra cá. Um dos relatos dele é a primeira vez de um dos meninos que tem paralisia: a observação dos coordenadores foi que a primeira vez que ele andou depois de muitos anos sentado na cadeira de rodas, foi em direção ao mar, numa dessas aulas. Ele conseguiu dar os passos em direção à água, na aula de bodyboard.
Nesse momento, o professor Irapagy Caetano intervém, dando uma definição bem humana para deficientes: Tem um termo legal que encaixa com nosso trabalho: “Portadores de necessidades educacionais especiais”. Se uma forma não dá pra ele, é só mudar e fazer se adequar a ele. Todos podem, não tem essa de “portador de deficiência”. Cisco completa: O grande lance é que o surfe é pra todo mundo, não tem limitações para trabalharmos.

6- O QUE SIGNIFICA A ESCOLINHA PRA VOCÊ? É SUA MAIOR OBRA?
Minha maior obra é minha filha, minha melhor onda. Achava que não existia nada melhor que o surfe, mas existe, o amor pela minha filha. A Nicole é a coisa mais linda que tem. A escola é um espelho do meu trabalho. É possível ver como conseguimos ajudar as pessoas, os próprios professores. Tem professores que estão aqui comigo desde menino, como o Irapagy Caetano, que foi garoto, monitor, depois nós ajudamos ele a se formar na faculdade, virou um grande professor. Você ver o quanto podemos ajudar uns aos outros é um fator legal pra ensinar e agregar valores legais pra sociedade. Por isso estou super realizado com essa obra. O surfe hoje é uma ferramenta muito boa pra trabalhar com pessoas de todas as idades, com necessidades especiais ou não, pra ser campeão ou não. Mas eu considero a escola pública uma obra da cidade.

7- QUAIS SÃO OS VALORES MAIS IMPORTANTES QUE APRENDEU COM O SURFE?
Os valores éticos, de respeito com a natureza, de sensibilidade de ser humano, de ver realmente a vida e dali ganhar forças para você ajudar as pessoas. Os valores mais nobres que encontrei em todos os esportes que pratiquei estão no surfe: ultrapassar os seus limites, mas ao mesmo tempo respeitar. Respeitar a sua pequena existência, porque nós temos medo de morrer, e o mar te dá uma luz de que o caminho é um pouco maior que isso.

8- VOCÊ ACHA QUE ESSES VALORES ESTÃO DIMINUINDO NO MUNDO DE HOJE?
Acho o contrário, os valores humanos estão crescendo em decorrência da limitação de recursos naturais e bens materiais. Quando existe um desgaste desses valores, os outros aparecem. Isso o surfe te dá. Por exemplo: o surfista em geral precisa de muito pouco pra viver. Como está muito na natureza, sabe que pode encontrar uma fonte de água, uma fruta para comer, um peixinho e arroz simples. E pode pegar sua bicicleta pra ir surfar, usar roupa que não seja de marca. Quando chega a muitos anos de surf, vai ter uma forma desprendida de viver, diferente dos valores impostos pela sociedade, que frustra os jovens. O surfista não quer uma coisa muito cara, quer coisas simples. Vai chegar uma hora que não vai ter dinheiro pra comprar aquela camiseta, então vai lá, “eu mesmo faço meu silk screen, pinto”.

9- FAZ DIFERENÇA TER NO SURFE UM GRANDE SER HUMANO COMO ÍDOLO MAIOR, O SLATER?
Muita. O Slater é um cara simples, humano, que sabe dar essa mensagem. Se tivéssemos o Mike Tyson como campeão de surfe, talvez fosse diferente, talvez rolasse mais agressividade. E de todos os filmes que tenho visto, vêm surgindo nessa forma, da volta às raízes. A volta da fish, single fin; a volta dos valores mais antigos, porque são os valores mais simples. Tá cheio de bom surfista que não quer nem competir.

10- DE ONDE VEM SUAS MELHORES LEMBRANÇAS DO SURFE? A ESCOLINHA JÁ ESTÁ MAIOR DO QUE O SEU LADO DE COMPETIDOR?
Não, é diferente. A gente aprende com a competição, é uma coisa mais dura, mas a gente acaba também revendo os amigos. E ela é legal no sentido de poder mostrar que sua técnica ainda está aí. E a técnica é boa como marketing pessoal pra escola. Por exemplo, o nosso trabalho tem muita visibilidade porque os alunos gostam quando o professor vai e às vezes se dá bem, isso é legal porque promove a escola. (Cisco compete ainda de longboard e também de pranchinha na categoria super master. Foi várias vezes campeão paulista pró de pranchinha e campeão brasileiro master de pranchão e pranchinha, além de ser o primeiro surfista brasileiro a viver do surfe - o primeiro profissional das ondas, nos anos 70)

(*) As aulas na Escola Radical de Santos/Sthill são gratuitas e abertas a alunos de qualquer idade. Mais informações pelo telefone (13) 3251.9838.

 
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