passo a passo
Duas pranchas foram produzidas especialmente para a edição Especial Pranchas [# 218]. A S5 da Shine Surfboards e a Tropical Brasil que virou nossa capa. Aproveitamos a carona para explicar o passo a passo na fabricação de uma prancha standard*. Existem detalhes que podem variar de um fabricante para outro, mas o básico está aí, explicado por quem entende dessa arte há muito tempo.
* A Hardcore adverte: não tente fazer isso em casa ou sem  assistência de um expert em local apropriado.

O SHAPE
Por Kareca [shaper e proprietário da Shine Surfboards]

Tudo começa muito antes do barulho da plaina. Na real, um bom shape começa a surgir na escolha correta do bloco. Curva, largura, flutuação e rabeta adequadas à prancha que se quer tirar de dentro daquele poliuretano “bruto”. Isto feito, as etapas seguem um critério que envolve um misto de conceitos matemáticos, físicos e artísticos.

Out line – Bloco no cavalete, idéias na cabeça e um template (espécie de régua de curvas que o shaper usa para desenhar o modelo da prancha no bloco). Imagine o alfaiate cortando um terno sob medida. Modelo riscado, o serrote corta os traços feitos pelo shaper. Nessa etapa, já foram definidos o tamanho e a largura do brinquedo (medidos em pés e polegadas).

Curvas e distribuição da flutuação – O shaper começa a desbastar o bloco pelo lado de baixo, para que possa acertar a curva e chegar bem próximo da massa de flutuação desejada. Esse é o momento de definir Concave, Doble Concave, V bottom, ou seja lá qual for o fundo desejado.
 
Caimento de borda – momento em que se define o tipo de borda: mais suave ou hard. O surforme é a ferramenta principal dessa etapa.

Acabamento – nessa etapa, lixas de várias granulaturas substituem a plaina para dar um acabamento liso, o que prepara a prancha para a pintura (caso seja colorida) ou direto para o glass (caso seja branca).

Marcações – Na fase final do shape são feitas as marcações das quilhas.

*Hoje em dia boa parte do trabalho pode ser executado por uma máquina de usinagem. O shaper define o design num programa, a máquina lê essas informações digitais e desbasta o bloco. O acabamento e detalhes de fundo e borda ainda dependem muito das mãos do shaper, mas esse processo facilita o trabalho e economiza tempo.

   
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A LAMINAÇÃO
Por Luis Lessa [gerente de produção da Tropical Brasil]

Depois do shape ser pintado de acordo com a encomenda ele vai para o setor de laminação, onde irá receber reforços de tecidos de fibra de vidro com resina, aplicada com espátulas de diferentes densidades. Normalmente usa-se uma para o fundo e o deck e outra para virar a fibra nas bordas. Esse processo é responsável por impermeabilizar e dar resistência à prancha.

Depois que o glass está seco é aplicado um banho de só de resina. Esse banho é necessário para deixar a superfície mais regular permitindo que a prancha possa ser lixada sem que a fibra sofra desgaste excessivo.

Após essa laminação ela irá para o setor de instalação das quilhas, onde o cliente pode escolher entre um sistema de encaixe ou quilhas fixas.

Sistema instalado, a prancha segue para o setor de lixa a seco (sand) onde a prancha é toda lixada, praticamente reshapeada, retirando as imperfeições referentes à laminação, rebarbas de colagem do sistema de quilhas e, importante, definição de todas as linhas angulares que havia no shape antes de aplicada a fibra.

Agora ela estará pronta para receber o que chamamos de banho final. Um preparado especial de resina, parafina, e alguns componentes químicos fazem com que o banho fique perfeito. Lisinho. A aplicação é feita com pincel, sempre em duas etapas, primeiro o fundo depois o deck. Assim impermeabilizamos ainda mais a prancha e cobrimos as marcas de lixa seca que deixam muitos riscos.

Depois de tudo isso a prancha ficará numa estufa de aquecimento para que possa ficar bem dura ou curada.

Um dia depois partimos para a etapa de acabamento final, ou lixa d’água. Essas lixas, de granulatura mais fina, são usadas sobre a superfície constantemente molhada da prancha, por isso “lixa d’água”. Nessa fase será dado o acabamento final. Ele poderá ser fosco ou polido de acordo com o pedido do cliente. No caso de polimento ainda serão usados outros produtos abrasivos aplicados à máquina, um tipo de super enceradeira.

Pronto, falta só ela ser inspecionada pelo controle de qualidade e seguir pra praia mais próxima.

PINTURA
Antigamente o método mais comum era pigmentar a resina. “Tintas” (pigmentos) especiais eram adicionadas à resina na hora do glass. Fabricar uma prancha com mais de uma cor dava um trabalho danado. A fibra do fundo que vira na borda até o deck podia ter uma cor. Depois o deck era laminado com outra cor e a junção na borda de uma fibra com a outra tinha que ser coberta por um filete também feito com resina pigmentada. As pranchas dos anos 70 eram basicamente assim, duas cores e algum detalhe e muito trabalho.
O air brush (pistola ou caneta que funciona como um spray) surgiu e as pranchas ganharam cores e desenhos variados. Era época de sombreados, paisagens, psicodelismos e refinamento de detalhes.
Há algum tempo a galera resolveu pintar a prancha depois de pronta e a febre de canetinhas, pincéis, mascaras e spray tomou conta. Agora temos todas as possibilidades ao mesmo tempo. A criatividade e especialização de cada artista têm emprestado às pranchas uma personalidade e beleza que podem fazer diferença na hora de revender a prancha ou simplesmente sentir-se mais inspirado por ela na hora de botar pra baixo naquele fim de tarde. 

Acompanhe o passo a passo do Felix, o artista da Tropical Brasil que utilizou técnicas variadas para criar o visual da prancha e da capa da edição # 218.

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